Desenraizamento

A tecnologia está atingindo seu apogeu em nossa sociedade. Os aparelhos eletrônicos têm tomado uma dinâmica cada vez mais imensurável que passam a tornar as ambições humanas que antes só podiam ser alcançadas em obras de ficção em realidade. A praticidade, conforto e até mesmo evoluções em ramos científicos importantes – em destaque a medicina – são fundamentais à qualidade de vida humana e é muito bem-vinda quando é para o bem de todos.

Porém, com processos cada vez mais automatizados, fica notável o grande buraco que se formou entre o ser humano e os processos de produção daquilo que lhe é de consumo. A ponto de cada vez menos termos contato com as etapas do produto, e nem ao menos nos incomodamos em investigar sua origem. Entramos, então, num processo de “ignorância confortável” que faz com que tapemos os olhos e os ouvidos para barbaridades cometidas por um pouco mais de conforto sedentario.

Como é o caso da China que está trocando o sangue de seu povo, o ar puro, rios, florestas e animais por uma corrida acelerada e desenfreada por crescimento econômico. Ou o resquício de escravidão na África por causa da exaustiva jornada de trabalho em fazendas de cacau. Ou, ainda, a luta de índios brasileiros por suas terras devido a uma guerra silenciosa contra grandes agricultores em processo de expansão de terras para atender demandas lucrativas de empresas nacionais e internacionais.

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O estilo de vida distanciado da produção de bens de consumo nos faz ficar alienados a nós mesmos. Pois, não mais detemos controle sobre quantidade e qualidade do que consumimos. Ao mesmo tempo ficamos tentados ao exagero, induzidos pela enorme oferta e variedade com preços atrativos. Deixamos de lado qualquer consciência do real valor das coisas que compramos para depositarmos uma fé cega nas etiquetas e não no esforço do solo, ou dos que trabalham exaustivamente por baixíssimos salários para tornar esse mercado lucrativo e desumano uma possibilidade tangível e real.

Do ponto de vista social, seguimos esse “desenraizamento” ao demonstrar uma constante intolerância e indiferença às pessoas afastadas de nosso campo de visão e/ou importância. Ficamos centrados e hipnotizados por um estilo de vida que apenas se preocupa em consumir sempre mais e muito além do que o necessário pra viver. Traímos nossa humanidade por um vício material. Vendemos barato nossas vidas em troca de alimentar uma frenesi artificial por bugigangas.

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“Não há economia em um planeta morto! Acabe com o ecocídio corporativo!”

Devemos gastar menos tempo preocupados em produzir e mais tempo a concentrados em dividir. Não só em questões materiais, como também dividir nosso tempo, nossas alegrias e nossa experiência no mundo. Precisamos dedicar mais tempo a conhecer nós mesmos e também uns aos outros. Trocar, tocar e sentir o que nos falta e nos preenchermos uns pelos outros. A vida pelos excessos é vazia e sofrida. A vida pela doação é completa e gratificante.

Vamos buscar nos tornar mais apreensivos e menos punitivos. Tirar de nosso interior esse medo de compartilhar e de abdicar dos excessos. Cultivar nosso amor em forma de tolerância e de paciência. Colocar nossos esforços em tornar a vida uns dos outros menos dura e mais repleta de abraços, momentos de felicidade e de sorrisos sinceros. Praticar uma boa ação diária e ver como as relações com as pessoas vão pouco a pouco mudando. Fazer a doação do afeto, do bom humor e da aceitação.

Enraizemo-nos! Façamos de nossas vidas uma árvore de virtudes: usemos de nossas experiências como uma vasta folhagem que dará abrigo a quem precisa, alimentemos os que nos rodeiam com o fruto do conhecimento e plantemos bons exemplos para criar raízes e sustentação.

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Uma consideração sobre “Desenraizamento”

  1. Questão realmente profunda tocada no texto. Esse desenraizamento parece se relacionar a algumas práticas que começam a se aprofundar na sociedade. Por exemplo, o trabalho imaterial não poderia influenciar esse processo de desapego à origem do que é material, resultando em seu consumo sem as reflexões acima propostas? Quais processos estão em jogo ao adquirir um livro impresso e um livro digital? Outra questão que naturalmente me toca bastante é o consumo de carne, um exemplo de prática fortíssima e que possui os mesmos dilemas filosóficos que muitas das nossas práticas de consumo.

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