Mostre-me sua letra e eu te direi quem és

Ao ler “A menina quebrada e outras colunas” de Eliane Brum, me deparei com um texto que me fez refletir sobre algo que gosto muito: Escrever. “Palavras em busca de adoção”, fala sobre a ‘morte’ de algumas palavras e expressões. Eliane nos lembra:

“O vocabulário também nos confina. Quando é limitado, é nosso mundo que se torna emparedado. Tente se imaginar sem palavras. Ou melhor: tente ser sem palavras. É impossível. Pensamos, sentimos, amamos, desejamos, brigamos, sonhamos, existimos – com palavras. Sempre com palavras. Onde estamos? Não em São Paulo, Porto Alegre, Rio, Brasília, Macapá, Recife, Paris, Miami, Pindamonhangaba ou Anta Gorda. Estamos nas palavras. Habitamos as palavras. Somos palavras. Quando estamos e somos nas mesmas poucas palavras, somos e estamos menos. É como ter a chance de viajar pelas galáxias e preferir se fechar numa quitinete.”

Ao final, a jornalista nos convida a usar uma palavra nova a cada dia. E fica aqui a dica, tire um tempinho para acompanhar as colunas dessa profissional que nos dá um prazer imenso de ler. – Foi então que comecei a pensar sobre ir além das palavras, mas da escrita/letra. Recentemente na internet foi lançado o desafio #aletradaspessoas, no qual cada um escreve algo em um papel, assina e pergunta “Qual é a sua?”. A foto com o pequeno texto é postada para os amigos virtuais.

1901685_893798200670391_6630818140304990580_n
Apresento a vocês minha letra “cocô de cabrito”, como diria um querido professor 🙂

Achei um desafio interessante e estimulante. Poucos dias depois de ter postado a minha letra para os  “amigos” do Facebook, me deparei com o texto de Eliane Brum. Comecei a recordar algumas coisas, e aqui estou escrevendo sobre.

Desde pequena sempre gostei muito de escrever. Recordo-me de ainda nem frequentar a escolinha, mas pegar uma caneta e rabiscar em uma folha em branco. Depois de tempos namorando aquela folha, virei para minha mãe e perguntei “Tá bonita?”. Pelas minhas lembranças, esse foi o primeiro contato que tive com o que seria uma de minhas paixões daqui a alguns anos: Escrever.

Um pouco mais tarde, já frequentando a escolinha, minha irmã mais velha me incentivou. Ela escrevia palavras pontilhadas para que eu passasse por cima. Como eu amava aquilo. Mas nem tudo são flores. Tive que usar o temeroso caderno para melhorar a caligrafia. – Aliás, não vejo mais as crianças usando esse caderno. RIP. – A professora era brava e tinha prazo para entregar a ela. Foi um momento frustrante para mim. Significava que minha letra era feia. Logo eu que amava escrever… Mas superei.

beyonce-hair

No que seria o ginásio, minha paixão por escrever era nítida. Sempre que alguém elogiava minha letra eu “me sentia”. Minha mãe então adorava as reuniões com os professores. Meus cadernos eram de um capricho… Flores desenhadas, patinhas de cachorrinho, adesivos. Letras coloridas, letras circuladas, letras marcadas, letras personalizadas, letras… Minha letra. Uma fonte única e que dizia mais do que eu poderia expressar.

Você já deve ter ouvido falar que a nossa letra nos descreve. Nesta matéria da M de Mulher você pode conferir mais sobre o assunto. Pensei sobre isso e percebi que nos últimos três anos eu conheci muitas pessoas e poucas letras. Na verdade essas pessoas ainda são estranhas para mim. Vejamos: se alguém pedir a Adélia, Cynthia, Paloma, Dani, Francisco, Larissa ou qualquer outro amigo do colegial para escrever algo em um papel sem assinar e entregar a mim, eu saberei quem é o remetente, mesmo sem a assinatura. Agora se pedir um colega da faculdade, quem mais tenho tido contato nos últimos três anos, para fazer o mesmo com o bilhete e me entregar, não saberei de quem se trata. – Ah, com exceção da Géssica, que já até dividiu bloquinho de anotações comigo no estágio.

Com os amigos do colégio eu trocava cartinha (e ainda tenho muitas guardadas), bilhetinho, lia a redação, pegava caderno emprestado para colocar a matéria em dia. Essas pessoas doaram um pedaço delas a mim quando deixaram uma mensagem em meu diário. Confiavam-me o caderno com sua fonte única. E eu confiava um pedaço de mim a cada um deles. E de vez em quando se ouvia um “minha mãe disse que sua letra é muito bonita”. Era mágico.

Mas isso se perdeu. E não ocorreu pelo fato de estar na faculdade. Você pai, mãe, tia, irmão, reconheceria a letra do seu sobrinho/filho/primo? Confesso que estou em dúvida se eu reconheceria a letra do meu sobrinho. O fato é que as pessoas estão digitando cada vez mais, e deixando de lado uma parte delas. Deixando de conhecer os outros e serem conhecidas.

As conversas são marcadas por bate-papos online, WhatsApp e postagens nas redes sociais. Mas isso se perde e não tem a sua marca. Quantos depoimentos de amigos do falecido Orkut eu perdi. Ainda bem que antes disso me deixaram cartinhas, das quais já comentei que ainda guardo com muito carinho.

Sou uma pessoa muito apegada. Minha letra é uma delas. Não troco minhas anotações por fotografia ou qualquer outro aplicativo. Podem me chamar de brega, ultrapassada, o que for. Mas anoto tudo. Da data a última palavra dita pelo professor. Sinto-me mais segura, tanto para estudar quanto para lembrar dos trabalhos a serem feitos. Ver as páginas do meu caderno com a minha minúscula letra (e redondinha!) na hora de estudar para uma prova me da um conforto. Ao ler, lembro-me dos detalhes da aula. Lembro-me de uma parte do meu passado que ficou gravada ali, naquele caderno. Com a minha letra.

Como eu disse, sou muito apegada. Nesse apego, tem uma lembrança da minha professora de história, Margareth. Ela pedia que fizéssemos resumo de cada capítulo do livro de história. Toda semana tinha o visto. Quando chegava a minha vez: “Olha a letra da Camylinha que linda!”. Certo dia meu resumo estava incompleto, mas ela estava tão maravilhada com minha letra (e capricho), que passou despercebido. Livrei-me de ficar no que seria o sexto horário, e de uma cartinha para casa. O esforço no caderno de caligrafia finalmente valera a pena.

Além de apegada, também sou detalhista. Se você estiver fazendo uma anotação perto de mim, com certeza irá ouvir algum comentário sobre sua letra. Fico imaginando quem realmente é a pessoa por trás daquela fonte. Se for uma pequena e redondinha, direi que é uma pessoa sensível e meiga. Uma maior e curvada, julgaria alguém sério e com muitos compromissos. Se for uma que não da para entender, chutarei médico, jornalista ou algum dos meus professores… E por aí vai.

Assim como Eliane Brum nos convida a usar uma palavra nova a cada dia, irei convidá-los a usar a letra com mais frequência. Em tempos que digitar é mais fácil, — sei o quanto é difícil usar papel e caneta (ainda mais em tempos de  reciclagem). Mas a letra é algo tão único, tão nosso, que não se deve perder em meio à tecnologia. Afinal, essa é uma das primeiras conquistas que temos em nossa busca pelo aprendizado.

——————-

avatar_camyla_oliveiraCamyla Oliveira
camylasoliveira@gmail.com

É estudante de Jornalismo na FESJF (em dúvida). Nas horas vagas gosta de ouvir música, assistir séries, filme (menos terror!), ler, escrever, dormir, estar com os amigos, entre outras coisas que não exija esforço físico. Amante do inverno, se sente indisposta quando a estação do ano é verão (lê-se inferno). Sonhadora, ainda tem esperanças de descobrir que criaturas míticas existem. Na pré-adolescência seu hobbie preferido era fazer “showzinhos” do grupo mexicano RBD. Na adolescência descobriu Justin Bieber, e bem… Já disse que ela AMA chocolate?

Anúncios

4 opiniões sobre “Mostre-me sua letra e eu te direi quem és”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s