Devemos exaltar menos a vitória e aceitar a derrota

Vivemos reféns de uma cultura de privilégios, de uma cultura que cultua a figura do “selfmade man” vencedor e inatingível no ápice. Acreditamos poder vencer sozinhos, sem auxílio de pessoas que ao longo da vida nos passam desapercebidas, um sistema inteiro e atingir a glória do status que, ironicamente é o mecanismo de recompensa da ilusão de meritocracia e igualdade de oportunidades dessa “fábrica de frustrações”.

Somos intimidados, alienados e coagidos convencidos desde muito novos a perseguir estilos de vidas compulsórios, a explorar sem qualquer pudor nossos corpos, mentes e aspirações para nos entregarmos de corpo e alma como engrenagens no mecanismo de produção de desigualdades, méritos e muito lucro aos a poucos que cultivam com sucesso os excessos materiais.

Perder se tornou uma ofensa moral. A derrota se tornou uma desonra. Por isso somos condicionados a nunca aceitar falhas, a nunca nos “render-mos” à improdutividade (material). Deixamos de ter neste processo, tão natural e necessário, a oportunidade de cultivar a humildade, a resiliência e a aceitação de limitações para então podermos reconhecer um lapso e supera-lo.

(Trecho) “Como todo mundo, você procura aprender como vencer, mas nunca como perder — como aceitar a derrota. Aprender a morrer é se libertar da morte. Então, quando amanhã chegar, você precisa se livrar da sua mente ambiciosa e aprender a arte da morte.” – Bruce Lee

A ingratidão desfuncional propagada por um discurso bonito de liberdade e democracia, cria seres humanos insensíveis a si mesmos. Pessoas que não conseguem lidar frustrações, com a insegurança de uma vida repleta de pressões no trabalho, família e sociedade por não cultivarem dentro delas mesmas a liberdade e a leveza de estarem desprendidas de vaidades, rancores, orgulhos e/ou vícios mentais, morais ou físicos ditos aceitáveis.

Privados da visão verdadeira daquilo que nos rodeia, vamos aos poucos aceitando o discurso que nos doutrina a nunca entender outras pessoas, a não perdoa-las. Fazemos cadeias com formato de masmorras para limparmos de nossa visão algo que incomoda não só a nós mesmos, mas um estilo de vida que tem se tornado um ritual social-religioso de criação de homens distantes de si mesmos e eternamente insatisfeitos.

depressao

É preciso dar atenção a nosso corpo. Saber ouvir o que está dentro de nós é libertador. Ao ser derrotado, devemos usar nossas forças para nos erguermos e não usarmos da frustração e do orgulho para causar o mesmo incômodo que nos foi infligido á nosso rival vitorioso. Temos muito mais a aprender com a derrota do que com a vitória. Sobretudo, aprender a como lidar com ela, a como vencer nossa vaidade e medo de, por um momento, falhar e cair.

Afinal, foi aprendendo a cair que o ser humano colocou-se sobre duas pernas pela primeira vez. Foi caindo inúmeras vezes quando éramos bebês que pudemos aprender a andar. Se ficássemos parados culpando nossas pernas por não ter tido, num primeiro momento, firmeza suficiente para carregar o resto do corpo, ainda seríamos quadrúpedes.

É fundamental ter disposição para errar. O erro não é nosso inimigo, é nossa libertação! O erro é o que nos torna dispostos a perseguirmos nós mesmos em busca de um melhoramento. É o erro que nos faz ter compaixão pelos outros, é o erro que nos deixa claro que há sempre um método diferente de solução para um problema.

Por fim, que cultivemos os erros como professores para então, aos poucos, supera-los. Deste modo seremos vencedores mesmo quando cairmos derrotados.

Anúncios

2 opiniões sobre “Devemos exaltar menos a vitória e aceitar a derrota”

  1. Ótima reflexão… Vivi isso na pele quando era atleta e foi por lidar mal com derrotas que abandonei o esporte.

    Devo confessar que gosto muito dessa cultura do selfmade man, não como alguém que construiu algo sozinho, mas como alguém que, com pouco ou nenhum apoio, foi atrás de seus objetivos.

    Minha impressão é que no Brasil temos a cultura oposta, de que tudo precisa vir de mão beijada, e que pessoas que atingem “sucesso” (no sentido capitalista da palavra) são mais invejadas que admiradas.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Não existe “selfmade man”, mesmo assim a expressão hoje se apropriou do sentido de “esforçar-se verdadeiramente”. Ninguém chega a lugar nenhum sozinho. Mesmo que outras pessoas não atuem diretamente em uma conquista pessoal, elas atuam oferecendo condições para que elas aconteçam. Eu tenho colhido bons frutos e dei sim duro para cultiva-las, mas seria muito ingrato e iludido ao dizer que foi tudo sozinho. Teve um enorme papel a figura de professores, da minha mãe, minha avó, meus amigos e do meu Dharma, ou Tao (caminho espiritual). Eu sou eternamente grato a essas pessoas e eternamente grato por erros passados e pessoas que descordam de minhas escolhas. É através dessas pequenas “sementes” que eu posso hoje estar vivendo muito bem. Eu não busco hoje “sucesso” no sentido de status, eu busco o caminho da compaixão e igualdade entre pessoas. Este é o meu “sucesso”. Cultivar a prajna (sabedoria) é cultivar riquezas.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s